Quando seu filho vai ler um livro sozinho

Veja como incentivá-lo, mas sem deixar de lado o momento de ler junto, estar perto, e compartilhar

Por Cíntia Marcucci e Fernanda Carpegiani – Site Crescer

A última coisa que seu filho vai fazer com um livro em mãos é ler o texto. Primeiro, entre 1 e 2 anos, ele vai ver e reconhecer as imagens. A narrativa, com começo, meio e fim, ele vai perceber entre 3 e 4 anos. Aos 5 ou 6 anos é que ele vai compreender a história e seus conflitos, que se apresentam no começo e ganham um desfecho no final. “A leitura propriamente dita acontece entre 6 e 7 anos só depois que a criança estiver alfabetizada”, diz a educadora Maria José Nóbrega. Mesmo sendo professora e sabendo disso muito bem, Lilíoan Gadini, 27 anos, confessa estar um pouco ansiosa porque o filho, Ítalo, 6, ainda não lê. “Dá um medinho. Logo o filho da professora não consegue ler? Por enquanto está tranquilo, ele está no tempo, mas eu percebo que tenho um pouco de pressa”. Ela, que também é mãe de Pietro, 1 mês, sempre lê com o filho mais velho e conta que ele também lê para os pais, “do jeito dele”, o que é muito positivo para o processo de aprendizado da leitura. “Às vezes a família não aceita a interpretação da criança e isso complica as coisas. Não é preciso ficar perguntando ou tentar fazê-la alcançar sentidos que ainda não compreende, mas sim lidar com o que ela fala sobre o livro. E encorajar a criança a ler sozinha, mas sem deixar de lado o momento de ler junto, estar perto, e compartilhar”, afirma Maria José. Para facilitar as primeiras leituras, ofereça livros com letra de fôrma, também chamada de letra bastão, e pouco texto.

Para que tanta pressa?

Para ter sucesso, a leitura deve caminhar ao lado do brincar, da música, das artes, de mexer com terra, de correr. Além do mais, aprender a ler primeiro que outro não é passaporte para um futuro bem-sucedido. “Há pais que encaram esse momento como um ‘agora eu vou ver se meu filho é ou não inteligente’. Ele vive um processo, que exige tempo, paciência e disponibilidade de todos. Ansiedade só atrapalha e ainda pode esconder um problema real, como de visão, audição ou um distúrbio de aprendizagem”, diz Dora Pires dos Santos, coordenadora da educação infantil do Colégio Augusto Laranja. Fazer um exercício de futurologia ajuda. “A alfabetização é como começar a andar: quando vemos um grupo de crianças andando, você não sabe quem andou primeiro. Ler é o mesmo: uns começaram em março, outros em outubro, outros em novembro. Mas quando todos lêem, você não sabe quem leu primeiro!”, diz a psicopedagoga Renata Aguillar, coordenadora do Colégio Brasília.

O casamento da dona Ratinha

Programa Leitura Viva Espaço Educar

Misturar teatro e contação de histórias pode ser uma boa dica para estimular nas crianças o gosto pela leitura


Ao dramatizar o texto O casamento da dona Ratinha, as educadoras do Jardim I, Kelly, Paula, Mariana e Patrícia, mostraram para as crianças que o espaço da leitura pode ir muito além das páginas dos livros, da sala de aula ou das rodas literárias e encontros na biblioteca.

Segundo especialistas em educação infantil, os momentos de contação de histórias dramatizados são importantes para o desenvolvimento sócio-comunicativo e afetivo das crianças.

Por meio desse contato lúdico com a leitura, os laços de afeto entre alunos e educadores são fortalecidos e o ato de ler transcende os limites formais.

Para o leitor, ainda em fase de construção, a teatralização de enredos no ambiente lúdico da escola representa a leitura ocupando novos espaços e interagindo com suas diversas possibilidades. É a prova de que é possível experimentar diversos formatos de incentivo à leitura.

Leitura no Pátio é uma ação integrante do Programa Leitura Viva Espaço Educar

FOTOS: Nildo Sena do Stúdio Sid Lermen

O que ler no Carnaval?

Livros: a melhor companhia para os dias de folia

Por Claudia Lins

Para quem vai viajar, ou mesmo aproveitar os dias de folga e passar mais horas em casa com os filhos durante o carnaval, reservar algum tempo para a leitura, é uma boa dica para compartilhar momentos especiais com as crianças.

Que tal aproveitar o recesso escolar e contar histórias para seu filho! Se ainda encontrar alguma livraria aberta, saía com ele e escolham um livro legal, ou passem juntos na banca de revistas para ver as novidades.

Revisitar a biblioteca de casa, relendo as histórias preferidas das crianças, também é uma forma divertida e especial de incentivar o gosto pela leitura.

Sem falar que um bom livro se torna ainda melhor cada vez que o relemos.

Dicas para um Carnaval Literário

Pensando em quem está em busca de dicas de leitura para esse carnaval, separamos quatro livros. Quem sabe, se entre uma comemoração e outra, não sobra tempo para conhecê-los?

Os Ibejis e o carnaval

A escritora Helena Theodoro, em seu mais importante papel — o de avó —, conta para seus dois netos, Neinho e Lalá, histórias do nosso carnaval.O livro apresenta de forma lúdica para as crianças, personagens tradicionais do carnaval brasileiro, como o mestre-sala e a porta-bandeira. As ilustrações são muito bonitas, o traço é leve e criativo e o jogo de cores é realmente encantador. Há também um ” rico glossário” definido na quarta capa, “pelo qual o leitor mirim poderá saber mais sobre uma das mais bonitas e famosas festas brasileiras”. Autora: Helena Teodoro – Editora: Pallas – 32 pg

O esconderijo das vontades

Uma cidade onde as vontades moram dentro da pessoas, mas nem sempre são notadas.Quando ignoradas, as vontades deixam as pessoas e saem em busca de outro lugar para se instalar… Uma fábula que celebra a coragem.
Autor: Jonas Ribeiro
Editora: Callis – 40 pg
Público alvo: do 2º ao 5º ano

 

OBAX
Quando o sol acorda nos céu das savanas, uma luz fina se espalha sobre a vegetação escura e rasteira. O dia aquece e é hora de descobrir muitas aventuras. A menina Obax tem a imaginação fértil e encanta a todos com suas histórias…
Autor: André Neves
Editora: Brinque Book – 36pg
Indicado para crianças de 5 a 12 anos
Livro vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantil 2011

 

Alecrim Dourado e outros cheirinhos de Amor
O  livro traz quadrinhas que conduzem os leitores a uma viagem pelo fantástico mundo da poesia, onde os versos têm cheiro, cores, surpresas e lembranças da infância. Brincadeiras com o mundo da oralidade.

Autores: Lenice Gomes e Giba Pedrosa
Editora: Cortez – 32pg

Aula de artes do Jardim II

A obra O Carnaval de Pieter Brugel foi tema da aula de Artes do Jardim II como parte dos conteúdos estudados para o projeto No tempo dos Castelos.


Durante a roda de conversa, as crianças apreciaram charges e ilustrações que reproduziram obras de arte do pintor realista e clássico, conhecido por retratar camponeses da era medieval.

Pessoas e brinquedos

Enquanto estudam a obra de Bruegel e de outros artistas do período medieval, as turmas dos Jardins II terão a oportunidade de descobrir hábitos e costumes das pessoas que viviam nessa época.

“Esse é um projeto marcado pela proporção humana e pelos brinquedos artesanais”, explica a professora de Artes Maria Mendonça, adiantando que durante as aulas do projeto, os alunos irão brincar e confeccionar brinquedos como teatro de fantoches, as cinco marias, cabo de guerra e cadeirinha de algodão.

O resultado da experiência com as aulas de Artes ajudará a compor o relato das impressões vivenciadas pelas turmas.

Quem foi Pieter Bruegel

Ele nasceu por volta de 1527, perto de Antuérpia, atualmente pertencente à Bélgica. Pouco se sabe a respeito da vida desse artista, exceto o que seus desenhos e suas pinturas nos mostram.

Na era medieval a Antuérpia era uma cidade muito importante. Pessoas do mundo inteiro ali compravam e vendiam coisas, como especiarias, livros e mapas. As famílias ricas da Antuérpia estavam sempre procurando novas obras de arte para encher os imensos salões de suas mansões.

Arte tridimensional

Em 1522, Bruegel decidiu ir para a Itália conhecer o modo como os artistas italianos pintavam e provavelmente foi nesse país que ele aprendeu as técnicas usadas por Michelangelo e Rafael para pintar pessoas de maneira mais natural e tridimensional. Bruegel sempre se interessou por paisagens, mas acabou gostando também de pintar pessoas. Com  o tempo, ele passou a produzir cada vez mais pinturas de pessoas.

Muitas obras de Pieter Bruegel mostram o quanto ele se interessava pelas pessoas simples do campo, pois retratava camponeses e agricultores trabalhando nas plantações e colheitas.

Veja FOTOS das turmas do Jardim II A e D – Manhã!

Roda de histórias com fantoches

Na Educação Infantil, especialmente nas classes dos Maternais e Jardins, os momentos de leitura se tornam realiadade a partir das rodas de contação de histórias. Enquanto as crianças se descobrem leitoras, o uso de fantoches e brinquedos tornam os momentos narrativos ainda mais lúdicos e prazerosos. No repertório de histórias contadas, clássicos, fábulas  e tramas da carochinha.

RODA DE HISTÓRIAS

Segunda-feira é dia de roda de leitura para turmas do Maternal II

E para entrar nessa roda, basta ter vontade de viajar pelo mundo mágico das histórias infantis. O bilhete dessa viagem não custa caro, pois a moeda é a imaginação!

Como acontece a dinâmica da roda?

As crianças são convidadas a fazer um passeio pela Biblioteca Educar. Chegando lá, são apresentadas aos balaios e estantes com livros, onde cada uma pode escolher o título que desejar. O momento da roda tem a duração de uma hora, tempo que meninos e meninas podem ficar se divertindo e trocando com os colegas as histórias emprestadas.

E o que elas mais gostam de ler?

Fábulas, histórias coloridas e bem ilustradas, são estes os livros mais solicitados pelas crianças do Maternal II, que ainda estão caminhando para o processo de construção da escrita, etapa que ocorrerá nos jardins. A turminha das professoras Célia e auxiliar Nayara, fotografadas para esta reportagem, elegeram como títulos favoritos os seguintes:

O casamento da Dona Baratinha;

A gansa de ouro;

O Homem de chocolate.

 

RODA DE LEITURA: veja todas as FOTOS!

De bem com a vida

Filó, a joaninha, acordou cedo.
– Que lindo dia! Vou aproveitar para visitar minha tia.
– Alô, tia Matilde. Posso ir aí hoje?
– Venha, Filó. Vou fazer um almoço bem gostoso.
Filó colocou seu vestido amarelo de bolinhas pretas, passou batom cor-de-rosa, calçou os sapatinhos de verniz, pegou o guarda-chuva preto e saiu pela floresta: plecht, plecht…
Andou, andou… e logo encontrou Loreta, a borboleta.
– Que lindo dia!
– E pra que esse guarda-chuva preto, Filó?
– É mesmo! – pensou a joaninha. E foi para casa deixar o guarda-chuva.
De volta à floresta:
– Sapatinhos de verniz? Que exagero! – Disse o sapo Tatá. Hoje nem tem festa na floresta.
– É mesmo! – pensou a joaninha. E foi para casa trocar os sapatinhos.
De volta à floresta:
– Batom cor-de-rosa? Que esquisito! – disse Téo, o grilo falante.
– É mesmo! – disse a joaninha. E foi para casa tirar o batom.
– Vestido amarelo com bolinhas pretas? Que feio! Por que não usa o vermelho? – disse a aranha Filomena.
– É mesmo! – pensou Filó. E foi para casa trocar de vestido.
Cansada da tanto ir e voltar, Filó resmungava pelo caminho. O sol estava tão quente que a joaninha resolveu desistir do passeio.
Chegando em casa, ligou para tia Matilde.
– Titia, vou deixar a visita para outro dia.
– O que aconteceu, Filó? – Ah! Tia Matilde! Acordei cedo, me arrumei bem bonita e saí andando pela floresta. Mas no caminho…
– Lembre–se, Filozinha… gosto de você do jeitinho que você é. Venha amanhã, estarei te esperando com um almoço bem gostoso.
No dia seguinte, Filó acordou de bem com a vida. Colocou seu vestido amarelo de bolinhas pretas, amarrou a fita na cabeça, passou batom cor-de-rosa, calçou seus sapatinhos de verniz, pegou o guarda-chuva preto, saiu andando apressadinha pela floresta, plecht, plecht, plecht… e só parou para descansar no colo gostoso da tia Matilde.

Nye Ribeiro, autora desta fábula, é educadora e jornalista e já escreveu mais de 30 livros

Nina Moraes, que ilustrou este conto com desenhos e colagens em tecido, é gaúcha de Porto Alegre

A lenda do preguiçoso

Lenda recontada por Giba Pedroza, ilustrada por Orlando – Especial para o site Nova Escola

Diz que era uma vez um homem que era o mais preguiçoso que já se viu debaixo do céu e acima da terra. Ao nascer nem chorou, e se pudesse falar teria dito:

“Choro não. Depois eu choro”.

Também a culpa não era do pobre. Foi o pai que fez pouco caso quando a parteira ralhou com ele: “Não cruze as pernas, moço. Não presta! Atrasa o menino pra nascer e ele pode crescer na preguiça, manhoso”.

E a sina se cumpriu. Cresceu o menino na maior preguiça e fastio. Nada de roça, nada de lida, tanto que um dia o moço se viu sozinho no pequeno sítio da família onde já não se plantava nada. O mato foi crescendo em volta da casa e ele já não tinha o que comer. Vai então que ele chama o vizinho, que era também seu compadre, e pede pra ser enterrado ainda vivo. O outro, no começo, não queria atender ao estranho pedido, mas quando se lembrou de que negar favor e desejo de compadre dá sete anos de azar…

E lá se foi o cortejo. Ia carregado por alguns poucos, nos braços de Josefina, sua rede de estimação. Quando passou diante da casa do fazendeiro mais rico da cidade, este tirou o chapéu, em sinal de respeito, e perguntou:

“Quem é que vai aí? Que Deus o tenha!”

“Deus não tem ainda, não, moço. Tá vivo.”

E quando o fazendeiro soube que era porque não tinha mais o que comer, ofereceu dez sacas de arroz. O preguiçoso levantou a aba do chapéu e ainda da rede cochichou no ouvido do homem:

“Moço, esse seu arroz tá escolhidinho, limpinho e fritinho?”

“Tá não.”

“Então toque o enterro, pessoal.”

E é por isso que se diz que é preciso prestar atenção nas crendices e superstições da ciência popular.

Especial Lendas e Fábulas

Relembre os principais mitos e histórias da cultura popular nacional e internacional recontados por grandes autores
Fonte: Site NOVA ESCOLA
A dança do arco-íris
Lenda indígena recontada por João Anzanello Carrascoza, ilustrada por Renato Alarcão – Há muito e muito tempo, vivia sobre uma planície de nuvens uma tribo muito feliz

A lenda do preguiçoso
Lenda narrada pelo contador de histórias Giba Pedroza e ilustrada por Orlando – Diz que era uma vez um homem que era o mais preguiçoso que já se viu debaixo do céu e acima da terra. Ao nascer nem chorou… – Leia mais!

De bem com a vida
Fábula da escritora e jornalista Nye Ribeiro, com ilustração de Nina Moraes
Filó, a joaninha, acordou cedo.
– Que lindo dia! Vou aproveitar para visitar minha tia.
– Alô, tia Matilde. Posso ir aí hoje?
Leia Mais!

No tempo em que os bichos falavam
Fábula de Esopo recontada por Georgina Martins – Houve um tempo em que os bichos falavam, e eles falavam tanto que Esopo resolveu recolher e contar as histórias deles para todo mundo. Esopo era escravo de um rei da Grécia e divertia-se inventando uma moral para as histórias… Leia Mais!

O céu ameaça a Terra
Lenda contada por Betty Mindlin e ilustrada por Joana Lira – Meninos e meninas do povo ikolen-gavião, de Rondônia, sentam-se à noite ao redor da fogueira e olham o céu estrelado. Estão maravilhados, mas têm medo: um velho pajé acaba de contar como, antigamente, o céu quase esmagou a Terra.Leia Mais!

O nascimento do mundo
Lenda maori recontada  por Maria de la Luz, ilustrada por Kipper – No início só havia Kore, a energia, vagando na escuridão do espaço infinito. Então, veio a luz e surgiram Ranginui, o Pai Céu, e Papatuanuku, a Mãe Terra Leia mais!

Pégaso e Andrômeda, a princesa acorrentada
Lenda grega recontada por Walmir Cardoso – Diz a lenda que muito tempo atrás, num distante país do Oriente, havia um rei chamado Cefeu, casado com a linda rainha Cassiopéia. Tal era a fama de sua beleza, que as pessoas vinham em caravana dos lugares mais remotos apenas para contemplá-la… – Leia Mais!

O nascimento do mundo

*Lenda maori recontada por Maria de la Luz, ilustrada por Kipper

Especial Site Nova Escola

No início só havia Kore, a energia, vagando na escuridão do espaço infinito. Então, veio a luz e surgiram Ranginui, o Pai Céu, e Papatuanuku, a Mãe Terra. Rangi e Papa tiveram muitos filhos: Tangaroa, deus das águas; Tane, deus das florestas; Tawhirmatea, deus dos ventos; Tumatauenga, deus da guerra, que deu origem aos seres humanos; e Uru, que não era deus de nada.

Rangi e Papa viviam num perpétuo abraço de amantes. Acontece que esse enlace apaixonado não deixava a luz penetrar entre seus corpos, onde ficavam os filhos. Obrigados a viver apertados e sempre no escuro, os jovens resolveram dar um basta na situação.

– Vamos matar Rangi e Papa e ficar livres deles! – disse Tumatauenga.

– Não! – disse Tane. – Vamos apenas separálos, empurrando um para cima e deixando o outro embaixo. Assim sobrará espaço para nós e a luz vai poder entrar.

Todos acharam a idéia excelente.

Tane, que era o mais forte de todos, firmou bem os pés em Papa, encaixou os ombros no corpo de Rangi e o empurrou para cima com toda a força.

Os pais se separaram, mas – oh, decepção! – só um pouco de luz chegou ao mundo dos filhos. Além disso, Rangi e Papa estavam nus e, longe um do outro, sentiam muito frio.

Comovido com a situação, Tane abrigou o pai com o negro manto da noite.

Para a mãe fez um vestido com as mais verdes e tenras folhas e as flores mais coloridas. Em torno dela fez ondular as águas azuis dos mares e rios de Tangaroa. Os ventos de Tawhirmatea sopravam suavemente seus cabelos. Os filhos de Tumatauenga já começavam a povoar o mundo recém-criado.

Olhando lá de cima os lindos trajes da mulher e sua participação no novo mundo, Ranginui ficou doente de inveja. Sua dor cobriu o mundo com uma névoa úmida e cinzenta.

Refugiado em uma dobra do manto paterno, Uru chorava e chorava por não ter sido útil em nada aos pais e aos irmãos. Para que ninguém percebesse suas lágrimas, escondia-as em cestas e mais cestas. Mas Tane tudo percebera:

-Uru, meu irmão, preciso de sua ajuda!

– Nada tenho para dar, você bem sabe!

– Ora, Uru, você tem tantas cestas…

Surpreso e com medo de ser descoberto em sua fraqueza, Uru abaixou a cabeça: – Não tem nada dentro delas, irmão.

Tane avançou e destampou uma das cestas. Dela voaram luzes faiscantes e risonhas para todos os lados. As lágrimas de Uru haviam se transformado em crianças-luz (para nós, estrelas)!

– Uru, será que você podia me ceder duas de suas cestas? Seus filhos poderiam enfeitar e iluminar a morada de nosso pai… Uru concordou. As duas cestas foram passadas para Te Waka o Tamareriti, uma canoa muito especial. Tane conduziu a canoa até o céu, espalhando sobre o manto de Rangi milhares de estrelinhas que riam e piscavam umas para as outras o tempo todo.

Quando Tane ia pegar a segunda cesta, esta tombou e se abriu, deixando as estrelas se espalharem numa grande faixa chamada Ikaroa, que cruzou o céu de lado a lado (para nós, a Via Láctea). Tane deixou Ikaroa e Waka o Tamareriti (que é a “cauda” da nossa constelação do Escorpião) no espaço celeste, onde se tornaram os guardiões das estrelas.

A dança do arco-íris

Lenda indígena recontada por João Anzanello Carrascoza, ilustrada por Alarcão

Especial para o site Nova Escola

Há muito e muito tempo, vivia sobre uma planície de nuvens uma tribo muito feliz. Como não havia solo para plantar, só um emaranhado de fios branquinhos e fofos como algodão-doce, as pessoas se alimentavam da carne de aves abatidas com flechas, que faziam amarrando em feixe uma porção dos fios que formavam o chão. De vez em quando, o chão dava umas sacudidelas, a planície inteira corcoveava e diminuía de tamanho, como se alguém abocanhasse parte dela.

Certa vez, tentando alvejar uma ave, um caçador errou a pontaria e a flecha se cravou no chão. Ao arrancá-la, ele viu que se abrira uma fenda, através da qual pôde ver que lá embaixo havia outro mundo.

Espantado, o caçador tampou o buraco e foi embora. Não contou sua descoberta a ninguém.

Na manhã seguinte, voltou ao local da passagem, trançou uma longa corda com os fios do chão e desceu até o outro mundo. Foi parar no meio de uma aldeia onde uma linda índia lhe deu as boas-vindas, tão surpresa em vê-lo descer do céu quanto ele de encontrar criatura tão bela e amável. Conversaram longo tempo e o caçador soube que a região onde ele vivia era conhecida por ela e seu povo como ?o mundo das nuvens?, formado pelas águas que evaporavam dos rios, lagos e oceanos da terra. As águas caíam de volta como uma cortina líquida, que eles chamavam de chuva. ?Vai ver, é por isso que o chão lá de cima treme e encolhe?, ele pensou. Ao fim da tarde, o caçador despediu-se da moça, agarrou-se à corda e subiu de volta para casa. Dali em diante, todos os dias ele escapava para encontrar-se com a jovem. Ela descreveu
para ele os animais ferozes que havia lá embaixo. Ele disse a ela que lá no alto as coisas materiais não tinham valor nenhum.

Um dia, a jovem deu ao caçador um cristal que havia achado perto de uma cachoeira. E pediu para visitar o mundo dele. O rapaz a ajudou a subir pela corda. Mal tinham chegado lá nas alturas, descobriram que haviam sido seguidos pelos parentes dela, curiosos para ver como se vivia tão perto do céu.

Foram todos recebidos com uma grande festa, que selou a amizade entre as duas nações. A partir de então, começou um grande sobe-e-desce entre céu e terra. A corda não resistiu a tanto trânsito e se partiu. Uma larga escada foi então construída e o movimento se tornou ainda mais intenso. O povo lá de baixo, indo a toda a hora divertir-se nas nuvens, deixou de lavrar a terra e de cuidar do gado. Os habitantes lá de cima pararam de caçar pássaros e começaram a se apegar às coisas que as pessoas de baixo lhes levavam de presente ou que eles mesmos desciam para buscar.

Vendo a desarmonia instalar-se entre sua gente, o caçador destruiu a escada e fechou a passagem entre os dois mundos. Aos poucos, as coisas foram voltando ao normal, tanto na terra como nas nuvens. Mas a jovem índia, que ficara lá em cima com seu amado, tinha saudade de sua família e de seu mundo Sem poder vê-los, começou a ficar cada vez mais triste. Aborrecido, o caçador fazia tudo para alegrá-la. Só não concordava em reabrir a comunicação entre os dois mundos: o sobe-e-desce recomeçaria e a sobrevivência de todos estaria ameaçada.

Certa tarde, o caçador brincava com o cristal que ganhara da mulher. As nuvens começaram a sacudir sob seus pés, sinal de que lá embaixo estava chovendo. De repente, um raio de sol passou pelo cristal e se abriu num maravilhoso arco-íris que ligava o céu e a terra. Trocando o cristal de uma mão para outra, o rapaz viu que o arco-íris mudava de lugar.

? Iuupii! ? gritou ele. ? Descobri a solução para meus problemas!

Daquele dia em diante, quando aparecia o sol depois da chuva, sua jovem mulher escorregava pelo arco-íris abaixo e ia matar a saudade de sua gente. Se alguém lá de baixo se metia a querer visitar o mundo das nuvens, o caçador mudava a posição do cristal e o arco-íris saltava para outro lado. Até hoje, ele só permite a subida de sua amada. Que sempre volta, feliz, para seus braços.

No tempo que os bichos falavam

Fábula de Esopo recontada por Georgina Martins, ilustrada por Evandro Luiz

Especial para site Nova Escola

Houve um tempo em que os bichos falavam, e eles falavam tanto que Esopo resolveu recolher e contar as histórias deles para todo mundo.

Esopo era escravo de um rei da Grécia e divertia-se inventando uma moral para as histórias que ouvia dos animais.

Na verdade, nem todos os moradores do país eram capazes de entender a linguagem dos animais, mas Esopo era. Sobretudo dos pequeninos, que falavam muito baixinho, como por exemplo os ratinhos que moravam num buraco da parede da cozinha do palácio.

Um dia, quando limpava o chão da cozinha, Esopo ouviu uns ruídos que vinham de dentro do buraquinho. Os ratinhos estavam muito agitados e preocupados, pois o rei havia colocado um gato grande e forte para tomar conta dos petiscos reais e o tal gato não era de brincar em serviço, já tinha devorado vários ratos.

Esopo apurou os ouvidos e pôde ouvir tudo o que os ratinhos diziam. Um deles, muito espevitado, parecia ser o líder e, de cima de uma caixa de fósforos, discursava:

– Meus amigos, assim não é mais possível, não temos mais paz e tudo porque o rei resolveu trazer aquela fera para cá. Precisamos fazer alguma coisa, e logo, porque senão esse gato vai acabar com a nossa raça!

Era uma assembléia de ratos e todos estavam muito empenhados em solucionar o problema que os afligia: um gato, grande e forte, que o rei havia mandado colocar na cozinha.

Já tinham perdido vários amigos nos dentes afiados da fera: o Provolone, o Roquefort, o Camembert e o pobre Tatá, o mais amado de todos.

Planejaram, planejaram e não conseguiram chegar a nenhuma conclusão que agradasse a todos. Precisavam de estratégias eficazes e seguras.

Uns achavam que deveriam matar o tal gato; outros diziam que era impossível: “Como matar uma fera daquelas?”

Horácio estava quase convencido de que a sina de seu povo era morrer entre os dentes do gato. Com lágrimas nos olhos, já ia descendo da caixa de fósforos quando Frederico, um ratinho muito tímido que nunca falava, resolveu dar sua opinião:

– Como vocês sabem, eu não gosto muito de falar, por isso serei rápido, mas antes vocês vão responder a uma pergunta: Por que esse gato é tão perigoso para nós, se somos tão ágeis e espertos?

E Horácio respondeu:

– Ora, Frederico, esse gato é silencioso, não faz nenhum barulho. Como é que vamos saber quando ele se aproxima?

– Exatamente como eu pensei. Me perdoem a modéstia, mas acho que a idéia que tive é a melhor de todas as que ouvi aqui. Vejam só, é simples: Vamos arrumar um guizo, pode ser até aquele que pegamos da roupa do bobo da corte. Lembram? Aquele que achamos bonitinho e que faz um barulho enorme.

Os ratos não estavam entendendo nada, para que serviria um guizo?

Frederico tratou de explicar:

– A gente pega o guizo e coloca no pescoço do gato. Quando ele se aproximar, vamos ouvir o barulho e fugir. Não é simples?

Todos adoraram a idéia. Era só colocar o guizo que todos ouviriam o gato se aproximar.

Todos os ratos foram abraçar Frederico e estavam na maior euforia quando, de repente, um ratinho, que não parava de roer um apetitoso pedaço de queijo, resolveu perguntar:

– Mas quem é que vai colocar o guizo no pescoço do gato?

Todos saíram cabisbaixos. Como não haviam pensado naquilo antes?

Era o fim da euforia dos ratinhos. Para Esopo, a moral da história era a seguinte: “Não adianta ter boas idéias se não temos quem as coloque em prática”. Ou ainda: “Inventar é uma coisa, colocar em prática é outra”.